Início | Versos | Prosas | Músicas | Sobre Mim


Escapismos

Fecho os olhos
e salto.

E era como se a felicidade realmente existisse.
E era como se nada pudesse me atingir.
E era como se eu pudesse ser amado.
E era como se eu fosse inteligente, sensível.
Realizado.

Mas basta abrir os olhos pras ilusões desvanecerem,
pra eu voltar à minha quase ordinária vida normal.
Sonhar com o futuro é só mágoa e fuga por não se realizar no presente.
Olho pra trás e tenho certeza.
Meu tempo está se esgotando.
O tempo de ninguém é infinito.

Fecho de novo os olhos
e novamente sinto o vento.

E era como se eu fosse imortal.
E corajoso, engajado, influente, especial.
E era como se todas as pessoas do mundo fossem boas.
E enxergassem a bondade nos corações e não a diferença nas superfícies.
E era como se houvesse amor.

Mas basta um tropeção pra qualquer um voltar à lama.
Basta um passo em falso e te derrubam do cavalo ilusório.
Ilusão é o que resta aos desejos impossíveis,
aos reprimidos.

De olhos fechados,
continuo caindo.

E era como se eu pudesse falar qualquer coisa.
E como se uma recompensa me esperasse no fim do caminho.
E era como se alguém sorrisse para mim, com um beijo nos lábios.
E era quase como um convite para a felicidade de verdade.
E era como se eu não estivesse sonhando.
E que tudo isso não fosse ilusão.

Mas a realidade é cruel.
Só em minhas fantasias eu me realizo.
Minha imaginação e meu escapismo me mantém vivo enquanto caio
entre privações e vontades abortadas.

Mas, indo mais fundo, a realidade -
a minha maldita realidade! -
é apenas uma percepção dos meus sentidos,
uma interpretação.
E interpreto incrementando o meu ponto de vista,
e ponto de vista é só mais uma ilusão própria.

Abro os olhos.
Ainda caio.

E era como se fosse possível alguns sonhos se realizarem.
E aí então seria como se eu pudesse ser, enfim, feliz.

Chego ao chão.


(Júlio B.)
www.000webhost.com