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E O Poeta Se Calou

Mas para ser classificado como sério, o poeta teria de deixar de desejar.
Desejar era o que ele mais gostava no mundo, e toda sua fé ali estava.
Por isso, ele não acreditava nos executores da função de classificar.

Suas palavras - por essência, livres -
teriam de ser escritas com as velhas heteroletras,
sem mais cachoeiras ou borboletas: só o velho modo convencional,
formal e não mais sentimental.

Mas pra quem acredita em desejo,
rimas parnasianas e versos machistas de cordel não chegam a ser poesia.
Lia e relia.
Não conseguia ver ali poesia.

Então por que ele se venderia?
Não havia prisão mais triste do que estar só, o poeta sabia.
Sabia e queria fugir.
Sempre foi o que ele mais quis, até mais do que ser feliz.

Mas para se perpetuar, o poeta teria de deixar de se inspirar.
O caminho era claro e o preço era alto.
Sem tijolos amarelos, sem asfalto cinzento,
lamento, mas o poeta jamais abriria mão de seus desejos.

Quando a heteroclassificação tentou comprar do poeta a poesia,
eu sabia, ele não se curvou, jamais se curvaria.
E enquanto todos esperavam o grito da revolução,
o poeta se calou, escreveu.


(Júlio B.)
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