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Um Grito em Favor de uma Criança que Não é como a Maioria das Pessoas com Quem Convive

Já chega!
Chega de toda essa hipocrisia!
Chega de tanta omissão e fingimento!

Não é opção,
nem é por mal.
Não tive escolha,
nunca me perguntaram o que eu queria,
nem nunca saberão o que se passa aqui dentro.

Eu era só uma criança...
Uma criança que se descobria diferente
do que era aceito por todos a sua volta.

Eu era coroinha na igreja
e não comia o trigo na missa de domingo
porque o padre me dizia que era pecado sentir o que eu sentia.
Ele via que eu sofria e não fazia nada,
só repetia proibições escritas num livro sem coração.
Mas o que havia de tão mau em amar alguém do mesmo sexo?
Isso eu nunca entendi, nem concordei.

Cresci sendo tratado como uma erva daninha,
mas eu era a frágil flor que cresce em meio ao concreto e ao fogo,
num jardim onde as flores tinham as mesmas cores e perfumes,
e as pedras eram tão imóveis, as brasas tão ardentes,
as barreiras discriminatórias tão constantes...

Sim, tiraram muito da minha essência tentando me adequar, me formatar,
pra não terem de discriminar um garoto tão bonzinho.
Mas não era mais justo admitir que garotos bonzinhos podem ser diferentes?

Foram anos de inocentes assassinatos,
com inocentes requintes de crueldade!
Estupros psicológicos e massacres sentimentais,
violências diárias à minha singularidade.

Tem noção de como machuca ouvir dizerem que é errado,
que é um pecado ser o que somos?
Que vamos arder no fogo do inferno?
E, se você indaga o porquê, bem, simplesmente porque sim,
porque é errado,
porque deus disse que sim,
porque os avós ensinaram aos pais que sim,
porque a anatomia animal disse que sim.
Mas eu não acredito em nada disso.

"Sim", pra mim, significa aceitar e não proibir.

E, nesse caso, é ainda mais cruel
por apedrejar alguém que já passa por dificuldades.
É não dar o ombro na hora difícil, e sim um tapa.
É culpar alguém simplesmente por ser o que ele é,
e com condenações pesadas.

Mas por quê?
O que há de errado?
Onde moram o crime e o pecado tão graves de ser diferente?

Se você acha que pode dar uma resposta, ótimo!
Mas, obrigado, não é pra mim mesmo que pergunto.
Eu já me virei como deu
e não sou quem mais precisa do seu apoio...

Mas olhe bem à sua volta:
aposto que tem alguém próximo a você que precisa.
Talvez seja alguém que não tenha ninguém com quem contar,
alguém que esteja sofrendo com as mentes antiquadas que o cercam,
alguém que dependa de pessoas que o obrigam a ser outro.
Alguém que ainda não percebeu o quanto está sendo lesado,
alguém que por vezes pode até consentir com as lesões.
Alguém que até já se julga errado, pois todos o fazem.
Pode ser qualquer um, até você...

E se você entende o que esse amontoado de palavras pretende alcançar,
tente não me criticar por dizer o que tantos já disseram,
se alguém ainda o diz, é porque ainda incomoda.
Só peço que não passe o preconceito adiante, por favor.

As pessoas que educaram as pessoas que nos educaram
queimaram livros e bruxas, enforcaram contestadores,
escravizaram negros, mataram índios, pobres e judeus,
a maior parte em nome de deus.
Mas se a gente consegue ver a hipocrisia dos outros,
por que não conseguimos ser melhores do que eles?
Se os mais velhos, pelo modo como foram criados,
ou pela mentalidade de suas épocas, ou culturas, ou pelo que for,
se eles tinham seus preconceitos, não os passemos nós adiante.
Podemos interromper uma onda que se arrasta há tempos,
e isso já seria um ótimo começo.

Não é pra mim, o meu tempo já passou.

É só que o grito que ficou preso na garganta
toma forma agora em alguma costura de palavras indignadas.
E quem sabe elas consigam ajudar alguém?
Então, todo o resto já terá valido a pena.


(Júlio B.)
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