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O Que Eu Realmente Sinto

Procuro saber agora o que está me deixando assim,
de onde vem esta angústia sem fim que não me deixa em paz,
que me faz revirar na cama e em meus pensamentos,
que me faz escrever como refúgio.
Talvez não venha de lugar nenhum,
talvez sempre tenha feito parte de mim.
Não acho que seja apenas uma dor de amor,
embora a falta dele tenha sempre doído bastante.
Fui educado por livros, filmes e canções,
mais do que por qualquer instituição,
então, não me admira que eu superestime romantismos.
Mas procuro me despir dos moldes em que fui criado,
das normas em que fui condicionado,
das formas e dos conteúdos.
Eu existo além disso.
Gosto da poesia,
mas nem dela eu preciso.

E nem é uma questão de estar deprimido,
talvez tenha um pouco disso também,
mas o que sinto é mais do que um modismo clínico.
Não vou fazer nenhuma loucura, não se preocupe.
Sou dos que, por natureza, acreditam que as coisas podem melhorar,
que preferem a esperança e seu horizonte mais bonito,
dos que, mesmo nos últimos acordes, dos últimos versos,
da última música do último baile,
ainda têm a esperança de que seu par irá chegar.
Dos que imaginam que no final haverá um sorriso,
um sorriso lindo.

Sim, eu acredito em coisas piegas
e não me envergonho disso.
Espero encontrar um amor a quem dedicar meus sentimentos
e todos esses assuntos de lugar comum.
Eu não estou de braços cruzados
esperando que me caiam do céu de mão beijada,
eu me esforço ao máximo do meu limite,
embora sem muito sucesso.
Mas não é só isso que me tira o sono
e nem seria a solução da solidão
o bastante pra abrandar esta inquietação voraz,
esta dor e sensação de vazio
do que eu realmente sinto.

Mas eu não sei o que é preciso
e não sei o que fazer pra escapar.
Não se acha em livros, nem na televisão,
nem nos divãs, nem no Google...

E eu vejo uma criança.
Ela sorri.
Sua franja tapa o sol que brilha para ela.
O sol não brilha para mim,
e o sorriso não é para mim,
e a alegria, mais uma vez, não é para mim.

Mas o que eu sinto não passa,
fica ardendo como uma chama que não se apaga,
uma ardência sem cor e sem graça,
que machuca de verdade na carne.
Que derrama lágrimas que cortam como navalhas,
que vem sempre na hora errada,
que interrompe os sonhos em que escapo
e dos quais eu preferia não acordar.

Então, vejo outra criança.
Ela chora por debaixo de sua franja mal cortada.
Não há sol, mas ainda há um brilho em seu olhar,
um brilho que eu penso ser de esperança,
de um sadismo que parece dizer com ironia
que tudo vai melhorar um dia.
A vida é um grande circo e nós os palhaços,
mas nem mesmo isso é para mim.

Então, tudo faz um pouco mais de sentido.
A dor não é exclusividade minha, é do mundo inteiro.
O mundo é feito de dor.
Dor e buscas por alívios.
Mas isso não chega a ser um consolo de fato,
só uma constatação pessimista.
Mas eu sou dos que por natureza acreditam, lembra?
Continuo sem respostas,
mas...

Então, vejo outra criança.
Essa não sorri, não chora.
Não há franja, nem sol,
nem brilho, nem ninguém.
Tudo em volta é solidão
e, no centro, um ego desesperado.

Esse sou eu.

O que eu realmente sinto não poderá ser expresso aqui.
Infelizmente, por mais que eu tente, eu não vou conseguir.
Tudo o que consigo construir com essas palavras é frio,
não chega nem perto do ardor que me queima o tempo todo.

E agora irei dormir.
Terei o mais belo sonho
e então acordarei decepcionado por não ser real.
E chorarei como criança,
sem franja, nem luz,
nem mesmo a solidão.
Apenas a mesma velha pergunta sem resposta:
- Por que me sinto assim?


(Júlio B.)
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