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Dezoito

E de repente dá uma coisa ruim,
sei lá, a sensação de que tudo é falso,
o pesar de estar sozinho entre essas pessoas de sorrisos falsos,
de não ver as pessoas por quem eu me interessaria,
de não falar de assuntos que me amadureceriam,
de não fazer as coisas que eu gostaria.
E eu nem sei explicar ao certo o que sinto,
não poderia dar um nome a esta dor.
É como o brilho melancólico que vem de repente dos astros da Via Láctea,
ou como uma chuva inesperada do perfume agridoce que exala a magnólia,
é como o verde desbotado das falsas árvores de plástico,
é como a morte hiperbolicamente amenizada,
é como um monte de coisa que sinto, mas que não consigo verbalizar.
Sempre achei perigoso me expressar por palavras.
Elas são tão vagas... Quase sempre são vazias.
E é nessa fragilidade que exponho,
que busco a minha poesia,
não aqui.
Aqui é onde falo de mim mesmo,
sentado nesta cadeira muda, olhando pra esta tela fria,
ouvindo estas músicas que conseguem fazer aflorar a angústia que a rotina silencia.
Ah, estas músicas falam mais sobre o que sinto do que eu jamais poderia expressar.
A melodia desata o nó que prende na garganta a emoção resignada,
o ritmo seduz o corpo sem alarde e trai os ensinamentos do que é ridículo.
A harmonia quebra a casca áspera que abriga à minha revelia o comodismo
e aquilo que preciso, e negligencio, vem à tona.
A vontade de chorar vem como um soco no estômago!
A dor segue a levada arrastada destas canções que me inspiram.
As vozes destes cantores falam mais por mim do que eu poderia clamar.
As lágrimas não se demoram então...
Inundados, os olhos testemunham a transformação da apatia em desespero.
Eu compreendo a grandeza e os pormenores pelos quais não sou feliz,
mas não sei o que fazer a respeito, como agir pra me salvar,
eu sinto que há uma saída, mas me perco no vazio,
na sensação de estar desperdiçando um momento único.
Tento me lembrar de todos os amores que tive.
Como eram mesmo os seus rostos?
A beleza que tanto me aprazia,
a agradabilidade nos sorrisos pelos quais me derretia,
como eram mesmo?
Só restou o gosto amargo das lembranças de quão mal sucedido fui em todos os casos,
lembranças como navalhas fatiando meus pensamentos toda vez que falo em solidão.
Mas não é por isso que escrevo,
tem algo mais a me incomodar...
Algo que me faz procurar alguma poesia na dureza das coisas.
Mas não me refiro a este amontoado de palavras aqui.
Isto são apenas desabafos da minha mente em prantos.
Não quero que isto se chame poema.
Nem sei se deveria estar escrevendo...


(Júlio B.)
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