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Ver Você Envelhecer

Ver você envelhecer, pra mim, é morrer.
É a morte mais lenta que posso imaginar,
o mais doloroso pesar ao qual posso me flagelar.
Você ostentava tanta beleza, tanta pureza...
Agora ostenta bebidas e cigarros.
Ostenta o seu carro.
Ostenta uma futilidade que não era sua.
Ver você envelhecer é admirar a contragosto
a mais perfeita ilustração da minha sina:
o tempo vai matando tudo o que me é importante,
inclusive a mim mesmo, inexoravelmente.
Eu também envelheci, mas você não reparou.
Dediquei parte da minha vida a ti,
mas você sequer notou.
A agora ver você assim, com o rosto mudado,
o cabelo cortado, o corpo crescido,
isso é como esperar no corredor da morte.
Mata-me aos poucos ver você assim, chegando ao fim.
Por mim, tudo deveria ter ficado daquele jeito,
aquela jovialidade no peito, no sorriso largo,
mas não é o meu egoísmo quem rege o tempo, não é?
E não há volta: envelhecer é fatal.
Esse é você agora, é preciso aceitar que acabou.
Ver você envelhecer me leva a não te desejar.
Ver seu rosto agora me faz buscar de novos olhares.
Ver sua maior beleza tão escassa faz meu coração te abandonar.
Vou em busca de algo novo.
Até que o algo novo também envelheça...
E eu tenha de fazer uma outra poesia por vê-lo envelhecer...
O tempo é implacável.
Arranca-nos a juventude, as esperanças,
e nada se pode fazer, só esperar pra morrer.
Ver você envelhecer, pra mim, já é morrer.


(Júlio B.)
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