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A Enxurrada

A enxurrada que me arrasta agora,
que me apavora, que me deixa sem ar,
contra a qual não consigo lutar,
nasce, corre e ocorre dentro de mim.
É tormenta sem fim, descontrolada.
Não se submete a nada,
muito menos à minha racionalidade.
É dor profunda e intransigente,
de algum lugar sombrio do subconsciente,
ou de qualquer outra entidade obscura
que perdura em meu âmago que definha,
e perdura com vontade própria,
mais própria do que a minha.

E me arrasa, me põe pra baixo,
onde nunca me encaixo,
e me deixa lá, a mente incerta,
sempre em estado de alerta,
em urgência, sem descanso.
Eu lanço apenas esses lamentos,
mas me viram as costas,
e ardo na expectativa de respostas,
de algum alento.

Faço as perguntas, direta e indiretamente,
a quem as cabe, e sofro na espera ralente.

E o sofrimento é pior, maior e sem dó
nos instantes que antecedem as repostas
que no fundo eu já sabia de cór.
Quando leio o gestual antes do falar,
os lábios antes de a boca se movimentar,
o Whatsapp em digitação antes ma mensagem chegar,
eu já sei qual resposta virá,
eu já sofria antes por ela,
já convivia com sua sequela,
mas durante iminência da confirmação
que do outro lado alguém digita,
o coração palpita, bate mais forte,
dispara sem norte contra a minha vontade,
como se aqui dentro, tome tento,
eu tivesse alguma que me obedecesse de verdade.

O gosto de sangue vem à boca,
como se um soco a queima roupa
tivesse me acertado bem forte,
como se fosse perigo de morte,
ou algo de extrema gravidade.
Mas, por sorte, não é.
É só mais um... alarde covarde
que meu corpo dispara,
como um tapa em minha cara,
sem que eu saiba o porquê.
É só algo simples, quase demodê,
a maioria nem percebe acontecer.

No entanto, pra mim significa tanto!
Tanto!
E por quê?
Por que este pranto?
Por que este descontrole total?
Por que não consigo ser racional
comigo mesmo como eu seria, afinal,
ao aconselhar qualquer amigo?
Por que não consigo por em prática
algum controle emocional?
Deve haver alguma tática,
algum recurso, algum processo...
Mas não! Perco o meu curso,
fico sem acesso ao controle a mim.
Por que meu corpo reage assim?
Por que sou escravo desta resposta somática?
Ardo.

Sinto tudo que há de bom em mim
perder prioridade assim, assim,
para que tal reação possa frigir em vão
no calor da expectativa sem fim
da confirmação da decepção.
Decepção que só eu sinto.
Só eu sei, por instinto.
Posso até tentar compartilhar
o fardo das malfadadas respostas,
pro peso ser menor em minhas costas,
mas não adianta, nunca vai adiantar.
Será sempre peso o bastante
para que nada mais vá adiante.

E que simbologia caprichosa!
O maior sintoma desta dor,
desta lamentação lamuriosa,
deste aperto e sensação de ardor,
desta reação que o corpo emite
vem, acredite, da região do peito,
do tórax, do coração...
Ah, simbologia sem compaixão!

Quem sou eu?
Corpo? Consciência?
Que consciência?
Loucura? Ciência?
Papel no mundo? Que mundo?
Melhor ser raso ou profundo?
Egoísmo, altruísmo, relativismo,
hedonismo, intelectualismo,
muitos "ismos" às beira do abismo.
Saltar ou não?
O que seria mais vão?

O que estou fazendo da minha vida?
Está tudo em medidas descabidas.
Já não consigo me encontrar.
Pra começar, não queria estar nesta lida.
Mas estou, porque me pagam bem.
Bem, não tão bem pelos destroços,
mas bem o bastante pro quanto me esforço,
mesmo havendo tanto mais que me faz suar.
Não obstante, pensando além,
onde é então que eu gostaria de estar?

Eu suportaria estar onde imagino?
Porque mesmo do modo que faço desde menino,
às vezes me canso a ponto de perder a alegria.
Será que não me cansaria?
Será que eu seria capaz?
Será que só me sentiria em paz
se eu vivesse sempre em aventura?
Porque enquanto a aventura dura,
tudo fica bem comigo,
corpo e mente são amigos na iminência do perigo,
adrenalina pura,
e então faz sentido qualquer loucura.

Mas como pode ser sustentável
apagar as chamas da dor inflamável
com mais chamas, mais ar, mais calor?
Novos desejos levam a novas decepções,
novos saculejos para velhos corações.
Bem, seja como for,
de que adianta arrumar um novo imbróglio errado
pra tentar fazer esquecer o anterior
que me causou tamanho estrago?
Tamanho furor, tamanho tormento,
tamanha enxurrada arredia que me asfixia
e me entorpece de sentimentos
que há tempos eu não sentia.

A chuva já caiu.
O sentimento já se feriu.
Não adianta chorar o leite derramado, eu sei.
Mesmo com todo duro que dei...
Já é passado.
É rio que não se atravessa a nado.
Só resta-me esperar a água da enxurrada escoar,
ou evaporar, ou se desintegrar,
embora seja longo o tempo que possa levar.
E sei que mesmo que chova outras vezes,
em outros dias, em outros meses,
não será mais a mesma coisa, os mesmos fatos,
as piscinas cheias de ratos,
os rostos, os retratos,
nem o tempo, nem o lugar,
nem mesmo mesmo os formatos,
ou as decisões que se tomará.

Fodam-se as decisões!
Que eu use palavrões!
Eu não deveria mais sofrer por isso.
Já era para eu estar forte,
casca grossa, couro duro e inteiriço,
mas não, estou na fossa sem norte.

Estatística!
Eu deveria me apoiar em estatística!
Pedir licença à veia artística
e usar a racionalidade reta e direta,
cuidar do meu espaço amostral,
aceitar que nem sempre alcançarei a meta,
aceitar que certa porcentagem vai acabar assim,
em frustrações doloridas que não serão o fim,
pois serão compensadas pelo percentual
em que as coisas darão certo no final.
E tanta coisa tem dado.
Eu havia acabado de vivenciar casos tão encantados.
Um caso errado não deveria me derrubar a tal ponto.
Eu deveria estar pronto.
Ponto.

Eu não deveria estar me sentindo assim.
Esta enxurrada não deveria emanar de mim.
Será que se eu ficar repetindo o corpo acredita?
Será que a mente pode simplesmente ignorar
a dor física de origem emocional
que tanto me perturba, que tanto me deixa mal?
Que tal ligar o foda-se?
Deixar que a dor que exploda-se?
Será que posso aprender a não me importar?
Porque, até hoje, não consegui.
Até hoje, eu só me perdi.
Só o que consegui foi constatar
o quanto ainda sou frágil e inseguro,
o quanto me coloco em apuros por tão pouco,
coisa de louco, de vacilões,
de gente sem controle das emoções.

Quando coloco em palavras dentro de um verso,
ainda que disperso, o problema parece menos perverso
e tenho a impressão de poder me controlar,
mas quando vem a enxurrada, sai de baixo,
eu não me encaixo,
eu desabo do último andar.
E acabo nesse estado em que me encontro,
angustiado, desbaratinado, tonto.
Como eu odeio sentir o gosto de sangue na boca!
Que coisa mais louca!
Não queria me sentir assim,
à mercê do estopim que aciona tais tormentos em mim.
Queria ser uma pessoa sólida,
não ser afetado por tal enxurrada mórbida,
ou, se afetado, abrandar logo a dor tórrida,
mas olha como eu sou?
Como estou...
O que eu sou?
Um barquinho de papel bem dobrado e adornado,
vagando à deriva em entremeios da enxurrada
de uma tempestade que aos olhos alheios
é em copo d'água.

Eu não me odeio,
não me entenda mal.
Eu, enquanto consciência imparcial,
respeito as necessidades físicas que tenho
e me permito qualquer empenho para saná-las,
e me permito abrir alas para o desespero
que busca alívios rápidos e sem zelo
que eu sei que vão me consumir logo a seguir.
Sei que não deveria me permitir,
mas se sofre o corpo, sofre a mente.
E não há como ser diferente,
eu sou um só, entende?
Não existe uma separação imparcial.
Só para efeitos didáticos, retóricos e tal...

Fato é que a dor emocional
se torna física nessa hora.
É uma única dor que me apavora
e ignora qualquer racionalidade.
Eu não tenho mais idade pra isso,
sério, eu queria um feitiço
pra fazer a dor parar,
a enxurrada cessar,
e a sensação de sangue a jorrar...
O sangue que ergue os meus desejos.
Eu posso sentir os lampejos,
mas não me conter.
Eu posso sentir, não ver.
Eu posso sentir, mas não me ajuda em nada.
É percepção inacabada, só me faz sofrer.
Talvez se eu pudesse ver,
pra tentar entender,
e então intervir,
extrair isso de mim.

Sim, o sangue é metafórico,
mas jorra longe, quase tóxico,
formando enxurradas de tormentos,
lamentos, arrependimentos,
de lágrimas por leite derramado,
a água suja corre por todo lado,
o vapor sobe... de dentro pra fora,
evapora do peito pro resto do corpo.
Torço pra passar... como torço!
É só que posso fazer: esperar.
Só de pensar... Só de lembrar...
Como pode? De onde vem tamanho poder?
É claro que vem de mim,
estou cansado de saber.
Mas como não posso controlar?
Como findar esta guerra sem fim,
esta tortura, este estrago
de lamentar o leite derramado
sem dar a mínima pra racionalidade que diz
que isso só me tornará infeliz.

Eu perdi.
Eu quis e não consegui.
A resposta foi curta e grossa,
e agora estou na fossa.
E a enxurrada não respeita nem mesmo o meu luto,
e luto como posso pra sobreviver a ela,
mesmo puto, com sequelas,
mesmo sabendo que ela emana de mim,
luto, pois preciso acreditar que há um fim.
Mas, como não sei como mandá-la embora,
agora, só me resta sofrer calado,
suportar sozinho o fardo.
Formou-se em mim uma enxurrada
de dor que não cessa por nada.
Arrebates de pesares que sobem pelos ares
como vapor de um peito cansado
que agora chora calado o leite derramado.


(Júlio B.)
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