Início | Versos | Prosas | Músicas | Sobre Mim


"Ele"

Eu sofro.
Ele não.
"Eles" nunca sofrem,
pois sequer têm um coração.
Não são gente.
Ele é outra coisa.
"Ele" virou tanto sujeito das minhas orações que antropomorfizou.
Virou uma entidade recorrente,
um ser independente dos seres que o carregam.
Como "ele" está, eu pergunto.
"Ele".
Quando ele me faz sofrer,
sofro por qual "ele"?
Pela pessoa real, que continua,
ou pela antropomórfica, que se foi?
Sofro por "ele", eu sei.
O que se foi.
O que não tem volta.
Tento me consolar dizendo que haverá outras oportunidades,
mas não será a mesma coisa.
Eu queria esta vez.
Por que ele fez isso?
E por que isso me afeta tanto?
Não deveria.
Mas como esquecer?
Se eu nem tivesse visto,
nem estaria sofrendo,
apenas vivendo em banho-maria à espera de uma chance.
Mas aí vem como surpresa,
um tapa na cara.
E fico sem resposta.
Mas a resposta nem seria um alívio.
É só um artifício para me deixar em estado de alerta,
inquieto, inconstante, triste.
Mas eu sei de onde vem o golpe,
só não sei como suportá-lo.
Sei como dar vazão, e me permito,
ou tenho me permitido,
porque não sei o que farei
assim que terminar de escrever
essa enxurrada de pensamentos desconexos,
desabafos do meu sofrer calado,
tentativa de transformar em arte o que é dor,
de transformar em algo positivo o que é até então só prejuízo.

Tudo isso porque "ele" se transformou.
E não fui eu a transformar.
Eu sou obsessivo, eu sei.
Obcecado.
Tem muito de loucura, eu sei.
Mas quem consegue enxergar?
A gente só consegue enxergar pra fora.
Pode tentar virar os olhos pra dentro,
não dá pra ver o cérebro,
o coração, as glândulas, a medula...
Talvez um cientista, com aparelhos,
câmeras, cirurgias,
talvez um cientista pudesse me dar a resposta
que mais me serviria,
em vez daquela que espero
e que sei que de nada me adiantaria.
Talvez um cientista pudesse me dizer
o que há de errado com meu corpo,
com o meu desejo por "ele".

Como pode? Que poder é esse?
É dele? É meu?

Morreu, tá morto.
Nasceu de novo, tem que esperar crescer.
Esperar.
Esperar, esperar.
É este o verbo que melhor descreve o que sinto por "ele".


(Júlio B.)
www.000webhost.com