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66,7 Km

Um terço foi só deslocamento solitário,
e há quem possa pensar que sou otário,
mas poucos sabem do meus honorários,
do que vive apenas no meu imaginário.

Primeira parada, já em cima do horário,
foi uma volta atrás no longo itinerário.
Como poderia eu deixá-lo ser secundário,
quando tem sido sempre tão voluntário?

A seguir, ajeitar o capricho dentário
e partir então para o desigualitário.
Muito longe, eu sei, quase um calvário,
mas minha pulsão é um ente refratário.

Quarta parada, um pulinho no santuário
do que não poderia ser mais precário,
mas lá fui eu ávido como um corsário
e tive o meu quinhão de tal rosário.

De lá desci ao barro longe ordinário,
que tempos atrás foi tão incendiário,
onde tratei de um peixinho no aquário
que não sei se já está fora do armário.

Fui então buscar o ególatra originário,
que não deixa espaço para comentários,
fiz o papel do padre no confessionário
porque ele é uma joia pro meu relicário.

Com ele, cheguei ao principal cenário,
o ponto de encontro, digamos, bancário.
Havia uns ossos de ofício necessários,
mas de repente ouvi um canto de canário.

Deve ter sido um arregalar lendário,
pena não poder ver meus olhos temerários,
tive um desconforto com seu vocabulário,
mas, que se dane, era o desejo primário.

Fiz a minha parte, como um missionário,
e voltei por fim pra casa, literário.
Há tempos não escrevia assim, arbitrário,
poema longo, pessoal, intricado, diário.


(Júlio B.)
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