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Num Mosteiro de Paris

Na declividade exagerada de cada dia,
as alegrias são caras, mesmo de relance,
as chances são raras e quando uma aparece,
faça sua prece e se atire de cabeça.

Ter prudência é bom pra não cair,
mas prudência não pode te impedir
de fazer as coisas nessa vida
que você gostaria.

Então se você notar alguma graça na descida,
ainda que você já tenha passado por ela,
faça o primeiro retorno, pare na passarela,
atravesse a Contorno, corra até ela, fale com ela.

Vá além de dias quentes de salas frias condicionadas,
de humores incontentes, de carros, pontos de parada.
Vá esculpir em material nobre versos de cobre
sobre um garoto infeliz num mosteiro de Paris.

Parece loucura?
Pergunte-me se quero a cura?
Normalidade ninguém atura.
Meu desejo é uma bomba
que explode quando a silhueta tomba,
que pode mais do que espoleta
inflamar um disparo tão incerto,
mas, visto de perto, eu tive uma chance
muito além do relance inicial.

Mas qual foi o sinal que eu li afinal?
Sim, era natural! Ah, tudo ali era.
Era loucura, claro, enfrentar tal fera,
mas, espera, eu tinha acertado o disparo,
meu faro leu a sua natureza física.

E sob olhos de tímidas babás
e porteiros que não falaram um "a",
na mais improvável das situações já calculadas,
a bomba foi desarmada.


(Júlio B.)
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