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As Garras Afiadas do Desejo

O desejo é fera intransigente,
não mede nenhuma consequência,
só sabe bem da fome que sente,
a dos outros nem toma ciência.

É leoa faminta indo à caça,
pois que se cuidem então as presas.
Se ela come e sua fome passa,
logo volta, é chama sempre acesa.

A vontade nunca é saciada,
não tem espaço pra compaixão.
Se sair a leoa em caçada,
fuja a zebra da perseguição.

É questão vital para cada uma,
é a aposta mais alta que se faz.
Se corre a zebra pela vida sua,
pela vida sua a leoa corre atrás.

Vencer não será se redimir,
nem desistir será covardia.
Se a zebra não pode mais fugir,
ela ainda tem serventia.

E se não sucede a caçadora,
há ainda outras presas por aí.
Mas se ela nunca for vencedora,
sua fome a fará sucumbir.

O desejo é algoz sem partido,
e sem direito à apelação.
E também não pode ser detido,
age por dentro, não tem perdão.

Mas certamente há quem diga: "- ei,
não concordo com o que você diz,
ao tratar o desejo por lei
da selva, sem direitos civis".

"- Ei, somos seres evoluídos,
com a faculdade da razão,
podemos viver todos unidos,
sem correr como zebra e leão".

"- Ei, somos seres evoluídos,
com a faculdade da razão,
podemos viver todos unidos,
sem correr como zebra e leão".

Mas eu mantenho a minha abordagem:
o desejo é fera intransigente,
com toda a licença da linguagem
de outro tempo, e de outro ambiente.

Você não mata mais pra comer,
compra morto no supermercado.
Pra caçar não precisa correr,
vai pra balada motorizado.

Só os mesmos velhos seres vivos.
Já não moramos mais na caverna,
mas caçamos em aplicativos.
Quem é quem na selva moderna?


(Júlio B.)
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