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A Maldade Em Mim E O Amor De Que Preciso

Está doendo novamente dentro de mim
o que há tempos não doía tanto assim.
Eu vim à janela ser esmagado pela madrugada,
sentir o frio que corta, ver estrelas caladas.
Ouço as mesmas velhas músicas que doem,
remastigo antigos pensamentos que destroem,
reencontro minha amargura adormecida,
estava lá, no fundinho, escondida...
E ela me joga na cara todo o meu tormento.
Mas percebo dessa vez um amadurecimento,
o esboço de alguma clareza.
No entanto, a minha reação foi a mesma.
A mesma.
Penso em ligar pra alguém, mas pra quem?
É tarde. Que horas são? Nem sei direito...
Sinto o aperto no peito, aquele que não tem jeito,
uma vontade presa de chorar, de ter a quem abraçar.
Nem sei por que ainda não chorei...
Quer saber o que me traz novamente essa expiação?
Acabei de ver num filme exatamente a situação
que expõe toda a maldade que faz morada em mim.
Mas, veja, eu não escolhi ser assim!
Nunca quis, é o que sinto, é o meu instinto.
Um sadismo que não é vontade própria ou egoísmo.
Venho tentando caminhos alternativos,
numa promessa interna de seguir vivo,
mas em momentos como este eu me pergunto
se esse maldito assunto
não vai além das minhas forças, da minha vontade,
da capacidade do meu bom coração.
Mantenho a promessa, mas a maldade segue em ação.
Ao longo de tantos anos lidando sozinho com isso,
tentei me compreender e evitar radicalismos,
tentei ser indulgente e respeitar minha natureza,
mas nesse instante, se eu pudesse, com certeza,
eu arrancava essa maldade de mim.
Sim, com isso eu chegaria ao meu fim,
mas também é uma escolha não seguir o instinto.
Sentei-me agora para escrever o que sinto,
mas não sei se consigo ir tão a fundo.
Sei que existe muita gente no mundo,
mas sei também que ter esperança
é adiar o tombo do qual não se levanta.
Mas que droga de vida é essa que eu vivo?
Em momentos como este nada mais faz sentido.
Então grito com toda a força do meu pulmão:
enfie logo uma espada em meu coração
e acabe de uma vez com essa provação!
Penso coisas ruins, fantasio maldades e me excito.
Tentação que só me machuca, oh, desejo maldito!
Eu preferia não ser assim, mas o que me resta fazer?
Acho que faltei no dia em que se pode escolher.
Como mando meus corpos cavernosos pararem de se encher?
Por que eu ainda estou aqui? Já devia ter me mandado.
O mundo no qual me ergui está completamente errado.
Tanta vida, tantos planos, tanta criação... tudo em vão!
Tudo pra nada, pra ninguém, pra viver só, em privação!
Mas meus desejos cruéis, como eu poderia dar vazão?
Não, eu não serei o monstro perseguido pela multidão!
Que raios de vida é essa que insisto em manter?
Isso não é viver: é agonizar sem ninguém a quem recorrer.
Eu não sei até quando sou capaz...
Tenho estado solitário por tempo demais.
É só sofrimento e negação, cegueira e proibição,
mesmo sem ter cometido o crime, a expiação.
É um castigo preventivo à minha libido,
o que é um grande perigo,
pois instiga ainda mais a maldade em mim.
Não, não quero mais viver assim.
Ou isso muda, ou nem sei mais sobre o que estou falando.

Então, venha!
Alguém, por favor, venha!
Venha como for, mas venha!
Venha para perto de mim e diga que vai ficar tudo bem.
Diga que os limites do mundo vão muito além,
mostre-me que viver ainda compensa,
seja você a recompensa por ter suportado tanta crueldade.
Arranca de mim essa maldade e me liberta dessa dor!
Dê-me amor.
Amor é a alternativa que ainda não tentei.
Não tentei porque não encontrei.
É a última cartada na qual consigo acreditar.
E estará tudo acabado se não funcionar.
Amor, amor, amor, amor.
Amor, e não esse aperto no peito.
Amor, e não esse desejo imperfeito.
Amor, e não essa vontade de chorar.
Amor, e não essa tristeza no olhar.
Amor, e não essa dor.
Amor, e somente amor.


(Júlio B.)
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