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Vida Letal

Sentimental.
Tórpido, lúcido, paradoxal.
Cansado, incessante, seminal.
Desesperado, esperançoso, passional.
Angustiado sonhador, nuvens contra o metal.
Existência mortalmente sem sal, fatal.
Rotineiro dia após confuso dia, tudo normal.
Esporádicas fugas lascivas da rotina, quase genial.
Cárneos desejos proibidos silenciados, pecado original,
mas cada um deles crucial, essencial, quintessencial,
argumentação oblíqua e normalidade teatral,
necessária atuação existencial...
Até vir a pá de cal,
retrocessos repentinos à realidade infernal,
à crua condição depressiva usual,
o sofrimento adicional que me deixa tão mal!
Encruzilhada psíquica e concupiscente crucial.
Deveres e direitos, ética e moral,
regras que não sigo, lavagem cerebral.
Desejos e vontades revelando o primordial,
sonhos e prazeres que almejo e tenho por ideal,
mesmo enfrentando sempre o rótulo de ilegal.
O que sinto é minha legitimação cabal,
e não o fardo de cada convenção social,
do qual fico apenas com o efeito colateral.
Intolerância, conivência, tudo proposital,
hostilidade, hipocrisia, o escambau.
Acomodação normativa atropelando de modo bestial
todo o espectro humano comportamental,
toda nossa nuança temperamental.
Tento manter a saúde mental,
a produtividade intelectual,
a segurança legal e estrutural,
mas preciso me arriscar com ímpeto jovial
pra realizar o que vive até então acidental,
só em pensamento, emocional e sexual.
Preciso pra fugir do meu exílio natural;
pra encontrar alguém legal;
pra encher a coleção de relações vazias atual
com sentimentos de impacto triunfal;
pra escapar dessa voraz tempestade mortal,
que me mata aos poucos com intensidade igual.
Preciso me arriscar na minha busca até o final.
Pra seguir em frente, preciso de toda minha força vital.
Força pra desbravar uma vida cada vez mais desleal.
Força total.
Hormonal.
Animal racional.
Instinto tal e qual.
Princípio fundamental.
Do fundo do abismo para cima, serve qualquer degrau.
Trilho qualquer caminho rumo à luz, um bom sinal.
Pela esperança mínima de qualquer felicidade real
eu me arrisco, pois levo uma vida tão letal.


(Júlio B.)
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