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Doce Figura

Não quero por os pés no chão
e mesmo assim aqui estão.
Não quero ser eu mesmo, mas sou, e então?

Quando me lembro da doce figura
que, com toda a sua candura,
cativa-me sem perceber
e que eu jamais poderei ter,
fico meio sem razão de viver.

Oh, doce figura,
és tão bela, meiga e pura,
toda cheia de ternura,
cultivamos amizade e doçura,
e mais um tanto de sentimento imperfeito,
mas eu com todo meu desajeito
nunca te disse direito
o que sinto a teu respeito.

Oh, doce figura, leia em meu coração!
Está tão claro o que não coloco em ação,
o que não demonstro com verbalização.

Então meus pés se desprendem do chão,
de repente voam na imaginação da realização
do que por dentro é só frustração.
Lá, cura-se a dor de não ter o que tanto tento,
sana-se meu silencioso sofrimento
e desabrocha no fim meu melhor sentimento.

Mas as distrações logo se vão
e os pés voltam ao chão.
E me desanima a realidade
e toda a sua crueldade,
até mesmo a mais fútil banalidade.

A culpa de ser como eu sou,
de me alimentar do que sobrou
do perfume que no ar deixou
a mais doce figura que a vida me negou.

Oh, doce figura que eu amo,
que no momento de dor eu chamo,
que no meio da depressão eu clamo,
eu não sei o que fazer com tanta vontade
quando o seu ser bruscamente me invade
e me perturba a calma,
e pinta de pesar a minha alma...

Mas o sangue ainda corre apesar do tormento,
e eu ainda consigo viver mais uns momentos
contra a corrente, a maré e o vento,
porque em duas fantasias me oriento:
uma delas que inventei, deprimido num canto,
no meu mais sofrido pranto,
e a outra que, por enquanto,
ninguém conseguiu perceber, e por isso canto:

tudo bem, nunca fui santo!


(Júlio B.)
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