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Imaginário Puro

Acordo tarde, mas não tão tarde quanto durmo.
Durmo tarde porque o tempo que me sobra dos meus dias nunca é o bastante.
Nunca é o bastante para todas as coisas que eu gostaria de fazer.
Porque não abro mão das minhas cores pra ser só o cinza que o meio quer.

Não me esforço como o esperado, mas isso não quer dizer que não me esforce.
Vivo empenhado em tantos projetos quanto consigo,
e, às vezes, até mais do que consigo,
e aí nem tenho como pedir alívio, porque ninguém sequer vê a sobrecarga.

Mas seguro a barra como dá.
Se o dia não basta, a madrugada tem uma elasticidade que me permite respirar.
A madrugada é o meu habitat.
E é só ela quem me acalenta,
que me acolhe em seus braços e diz que vai dar tudo certo,
que não me cobra nada, que não me impõe nenhum modo de agir,
que me deixa livre pra decidir se me canso ou se descanso,
se durmo ou continuo, se apareço ou se me escondo.

Quanto mais eu deixo de lado os paradigmas sociais para os quais fui condicionado,
quanto mais eu apuro o que é verdadeiramente meu do que é apenas costume,
mais eu sinto a minha minha parte real desaparecer,
e eu vou ficando imaginário puro.

Por dentro, sim, eu me orgulho disso,
mas por fora é duro, tudo me pressiona.


(Júlio B.)
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