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Momentâneos Lapsos De Êxtase

Sigo tranquilamente, entre a inquietude e a pressa.
Lembro-me de que deve haver paz em meu silêncio,
e que palavras são frequentemente causa de remorsos.
Digo o suficiente para não terem medo de mim,
pois o mistério assusta os que vivem da rotina.
Ouço o que me dizem, mesmo os mais ignorantes,
pois eles têm também sua própria história,
e uma necessidade muito grande de serem ouvidos.
Evito as pessoas hipócritas e agressivas,
pois elas afligem a tranquilidade em volta delas.
E evito tudo aquilo que não me atrai,
e me arrisco até demais quando é por algo que desejo.
Mantenho as relações que preciso.
Às vezes, invento estórias pra parecer real.
E em raros momentos isolados,
até encontro pessoas que valem a pena.
Não me comparo aos outros, por ser um inútil paradoxo.
Eu me tornaria presunçoso e magoado,
pois sempre haverá alguém superior e alguém inferior a mim.
E isso não me incomoda mais.
Há ainda pessoas que me cativam,
que me fazem acreditar nas coisas boas
que as duras circunstâncias às vezes me fazem esquecer.
Há ainda pessoas que seria possível amar.
Eu sei que há.
Mas são eles os filhos do universo,
irmãos das estrelas e dos enigmas do tempo,
detentores da magia que me encanta.
Fácil de admirar, difícil de alcançar...
Mas sigo tentando, e tentando tranquilamente,
realizado por momentâneos lapsos de êxtase que conquisto.
Arquiteto planos pra me encaixar nas brechas que enxergo,
minhas estórias estão cada vez mais cheias de sentido,
minha criatividade mais aflorada e muito útil.
Cuido em dar atenção a todas as minhas vidas,
pois as sinto como acréscimo, nunca como conflito.
Gozo quando é possível do fruto dos meus esforços,
das minhas tentativas, das casualidades, das fatalidades.
Tenho cautela em quase tudo, pois o mundo está cheio de astúcias,
mas nem sempre é possível.
Empolgado, já fui enganado por um suposto inocente,
mas nem por isso me tornei um cético dos ideais românticos,
porque acredito que o amor é mesmo isso tudo o que dizem,
mesmo diante de tanta aridez e desencanto,
o mundo ainda o repete como um mantra.
Acredito que a inocência é uma virtude, ainda que perigosa,
é a minha grande tentação.
Quis, por todo meu caminho, encontrar uma companhia.
Muitos temores nascem do cansaço e da solidão.
Os sonhos vêm, os sonhos vão...
Alimento a força de vontade e amadureço a percepção
para saber lidar com infortúnios inesperados
que fatalmente hão de acontecer.
E a despeito de uma disciplina mais rigorosa,
tento sempre ser gentil e compreensivo comigo mesmo.
Não preciso ser perfeito, nem o melhor.
Quaisquer que sejam os meus problemas,
trabalhos e aspirações, estratégias e intenções,
na fatigante confusão da vida moderna que levamos,
mantenho-me em paz com minha consciência,
o que é determinante pra manter unidos os pedaços do meu coração.
Apesar de todas as falsidades, fadigas e desencantos,
ciladas e arrogâncias, o mundo ainda é bonito,
mesmo que eu precise me contorcer todo para apreciá-lo...
Nos lapsos de tempo que arquiteto,
com a imprudência que administro em doses perigosas,
ao custo dos sacrifícios que ofereço de mim mesmo,
pra encontrar o tesouro da felicidade
diluído na imensidão desse mundo sem sentido.


(Júlio B.)
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