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Sinestesia

O que escrever então, quando se cansou de esperar o corpo a mente?
Como descrever o que se sente?

O perfume das irrealidades me invade em sua fúria
e me custa me sentir se não confuso e perdido no ar.
Troco os nomes, os anos, percebo que não estou bem,
vejo que essa trilha sonora não é do meu suspense noir.

Toco o zumbido de cores que não combinam mais comigo,
melodias que não me enchem como antes o olhar.
Queria esquecer as agridoces contravenções silenciadas
e ouvir líricas texturas de sol ao arrebol ou ao luar.

Mas as coisas nunca me vêm de acordo com meu gosto,
eu queria, quem sabe um dia, misturar isso tudo,
pra encontrar um contra-feitiço, um antídoto,
uma solução homogênea para a forma e o conteúdo.

Pegar os galanteios, os sonhos, as irrealidades,
misturar com tudo mais que fosse de real valor,
apontar para o longínquo que seria o horizonte,
uma fresta de luz para um futuro promissor.

Queria fundir tantas sensações numa só matéria,
pra confundir a mesmice, pra escrever versos de amores.
Não quero mais ficar me guardando para um sonho...
Queria sentir outros sabores, outros sons, outras cores.

Mas, no fundo, o que eu mais queria
não vem com sinestesia, nem cai do céu:
é finalmente ter a quem beijar
os sonoros e rubros lábios de mel.


(Júlio B.)
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