Tristessa & Clarissa

(Júlio B.)

I - Tristessa & Clarissa

Gêmeas idênticas, principalmente em nunca terem sido felizes.

Idênticas da frágil personalidade introvertida ao estilo indie pouco feminino.

A cada nova manhã, antes de escovar os dentes, Tristessa se perguntava como seus pais teriam sido capazes lhe dar um nome como aquele! Não era o nome de nenhuma avô, nem mocinha de filme, não era homenagem a ninguém. Então por que dar tão malfadado nome a uma criança? Às vezes, achava que a escolha de seu nome tinha sido obra de uma força maior, uma predestinação cósmica à qual cedia sem nenhuma luta.

Acordava sempre antes do sol nascer, e chorava. Assim, quando os outros acordavam, ela já havia gastado as lágrimas do dia, e ninguém a veria chorar. Também não a veriam sorrir. Na verdade, poucas pessoas a veriam de algum modo. Saía pouco. Falava pouco. Comia pouco. Sonhava pouco. Sua presença era menos intensa que a da estátua de mármore que jorrava água multicolorida pela boca no jardim da mansão. Se a estátua desaparecesse, certamente todos que estavam acostumados com ela notariam sua ausência.

O melhor momento do dia de Tristessa era quando voltava a dormir. Era quando deixava de ter consciência do mundo por algumas horas. Deixava de pensar em quão triste era viver. Às vezes, pensava em se matar, mas desistia quando pensava nas flores do velório.

Tristessa era vegetariana, por influência do seu cantor preferido, Morrissey.

Clarissa também era vegetariana, e também ouvia Smiths e era fã do Morrissey.

Clarissa também acreditava numa predestinação cósmica a respeito de seu nome, no entanto, isso a levava a crer que algum dia encontraria alguma claridade em sua vida, embora vivesse numa obscuridade exatamente igual à da irmã. O vazio em tudo que vivia a mantinha acordada até tarde em pensamentos sombrios. Por isso, não conseguia acordar cedo. Assim, quando chorava, todos na mansão acabavam sabendo. Pensavam ser uma ironia Clarissa chorar todo dia e Tristessa não. Mas independente de qualquer comparação entre elas, os empregados da casa achavam as duas igualmente estranhas.

Clarissa seguia a sua dieta de anti-depressivos mais à risca, mas ainda assim pensava em se matar toda terça-feira. Na quinta, tinha aula de dança. Não gostava de dançar, não gostava das aulas, mesmo assim continuava a ir toda semana, sendo inclusive a aluna mais assídua do curso.

Já Tristessa não fazia mais nada, além de ir pra escola e se esconder do mundo o resto do tempo. Elas não precisavam fazer mais nada, sequer precisavam se preocupar com o futuro; seus pais eram podres de rico. Estavam no terceiro ano do ensino médio, mas eram igualmente apáticas à escola quanto a tudo mais em suas vidas. Não tinham amigos. Não gostavam dos colegas de classe. As garotas eram barbies histéricas e os garotos uns playboyzinhos arruaceiros. Quando eles queriam parecer sérios, falavam qualquer asneira sobre vestibular, faculdades, carreiras, e as gêmeas só pensavam em quando não precisariam mais voltar ali. Na escola de dança, as colegas de Clarissa só sabiam falar de trivialidades suburbanas que a aborreciam à morte. Os colegas eram todos bichas afetadas.

Mas era do irmão mais novo, Pablo, de quem elas menos gostavam. O que mais as deprimia era o sorriso fácil de felicidade que ele trazia sempre no rosto. Jogava golfe com o avô e era o seu neto preferido. Contava piadas de mau gosto para os tios e era o sobrinho mais presenteado. Ia bem na escola e seus pais o endeusavam. Sabia arrotar alto e seus amigos vibravam. Ganhou de presente um cachorro, Sebastian, e o cãozinho também o adorava.

Mas Pablo não era de fato adorável, isso elas sentiam na pele.

Tristessa e Clarissa eram o parente leproso que se esconde no sótão. Preenchiam o vazio de suas vidas com pensamentos negativos e suas próprias solidões. E nunca se interessavam por nada, nem ninguém.

Até conhecerem Diego.

II - Diego

Diego continha-se em sua própria introspecção.

Filho da governanta da mansão, foi flagrado por Tristessa mexendo nos discos raros na sala de música. Era a primeira vez que ela o via. Um rapazote ainda. Vestia uma camiseta barata com uma estampa desbotada do Meat Is Murder, um jeans surrado, um allstar branco encardido, e uma franja passando da hora de cortar que lembrava a do Alex James, no início do Blur.

Ruborizou completamente a face quando percebeu que a filha do patrão o observava em seu delito. Não era a primeira vez que ia à mansão, nem era a primeira vez que garimpava aqueles álbuns que só via em resenhas na internet, mas foi a primeira vez que viu pessoalmente uma das gêmeas que sua mãe tanto mistificava. Virou-se para ela com alguma subserviência, mas não foi capaz de dizer nada, nem mesmo de pedir desculpas por mexer nas coisas alheias.

Também Tristessa não foi capaz de dizer nada, e queria dizer tanta coisa! Queria dizer que estava tudo bem, que ele podia mexer ali quando quisesse, que podia levar toda aquela quinquilharia pra ele, se preferisse, que podia levá-la pra cama e tirar-lhe a virgindade, que podia tomar seu coração entre as delicadas mãos e fazer dele o que bem entendesse. Tristessa o amou desde o primeiro olhar de embaraço que trocaram.

De pé, na sala de estar, um de frente para o outro, não sabiam como escapar daquele impasse constrangedor e ardente da situação. E Tristessa nem queria. Diego era toda a beleza que ela nunca vira em nenhum outro lugar no mundo. Ele todo, o conjunto, a harmonia, a delicadeza da forma, os signos do conteúdo, os traços efeminados, os olhos castanhos escuros, quase mórbidos, a pele pálida de quem nunca tomou um raio de sol na vida. Ela poderia passar a eternidade contemplando-o sem precisar de mais nada, nem mesmo de respirar, mas a governanta chegou na sala e quebrou o vínculo silencioso que eles haviam estabelecido tão instintivamente.

Tristessa simplesmente abaixou a cabeça e voltou para o seu quarto sem dizer uma só palavra. Mas ainda do corredor ouvia o filho dar desculpas à mãe por ter mexido nas coisas dos patrões. Quais desculpas, ela não ouviu, mas a voz de Diego, ah, era como música! Era o timbre mais doce que já ouvira e ouviria em toda sua vida.

Diego tinha apenas quinze anos.

A mesma idade de Pablo, com quem já havia se encontrado outras vezes durante as visitas à mãe. Mas Diego não gostava dele. A mãe dizia que Pablo era mais sociável, embora sociabilidade não seja um bom termo uma vez que Pablo apenas usava Diego como quebra-galho para qualquer coisa que quisesse fazer. Definitivamente, não gostava dele. Mas da irmã ele gostou! A gêmea com quem trocara o longo olhar. A mãe não soube dizer qual das duas era, achava que era Tristessa, mas podia ter sido Clarissa, eram tão sem personalidade que nem dava pra saber quem era quem, ela dizia.

Diego também se apaixonou naquele primeiro olhar. A gêmea não era desajeitada ou estranha como a mãe sempre dizia. Nem tão fantasmagórica quanto parecia nos retratos nas paredes da mansão. Era muito bonita, na verdade. Parecia uma flautista de banda de Twee Pop.

Diego morava com os avós. A mãe só ia ficar com eles aos fins de semana; os outros dias ela dormia no trabalho. Diego a visitava muito pouco, mas desde que vira Tristessa, as visitas começaram a ocorrer religiosamente todo dia, sempre na expectativa de esbarrar com a gêmea em algum canto da casa. As borboletas se reviravam no estômago toda vez que ouvia um passo pela casa vindo em sua direção, mas sempre era o chato do Pablo. Vinha sempre lhe pedir algum favor. Ligar para alguma garota se passando por alguém, ou levar Sebastian pra dar uma volta no bairro, ou ser o gandula enquanto praticava tênis, ou só pra ver como seu jardim crescia.

Até que num cinzento dia de primavera, quando uma repentina chuva se desprendeu das nuvens, a mãe lhe pediu que ajudasse os empregados a fechar as janelas da mansão. Diego logo se encarregou de verificar os quartos. Sabia bem onde eram os das gêmeas. Elas haviam saído com os pais, mas de qualquer maneira lhe agradava a idéia de conhecer o quarto da garota por quem se apaixonara, mesmo que ela não estivesse lá.

Entrou no primeiro. Soturno. Janelas fechadas e cortinas que bloqueavam praticamente toda a luz. Não havia o menor sinal de vida, só uma edição importada da biografia do Morrissey sobre o criado mudo.

Correu até o segundo. Era exatamente igual. Soturno. Janelas fechadas. Um relâmpago iluminou tudo ao redor, mas o escuro voltou na seqüência. Isso aconteceu mais algumas vezes, nas quais Diego tentou ver algo mais, apesar do escuro sempre chegar antes. Mas havia uma luz que nunca se apagava, que lhe chegava enquadrada geometricamente através das frestas da porta do banheiro. Diego se distraiu um minuto contemplando-a e a porta do banheiro se abriu, revelando a dona do quarto apenas de toalha, de cabelos molhados, de pele hidratada, de olhos assustados. Aconteceu de novo, o mesmo embaraço, o mesmo longo olhar de surpresa e desejo. Exatamente o mesmo, a mesma intensidade, como um novo um primeiro olhar, e não um segundo. A paixão podia ser vista se acendendo na pele dela ainda molhada. Novamente, nenhum dos dois sabia como quebrar o impasse. Diego pensou que dentre de instantes algum empregado passaria para conferir se estava tudo bem, e então ele voltaria a seus afazeres naquele dia chuvoso sem ao menos dizer uma palavra à sua amada. Ela também queria fazer algo, mas não conseguia mover um músculo. Foi então que um raio riscou o céu como uma criança risca uma folha de papel, e um clarão invadiu o quarto, iluminando os olhos de ambos que ardiam em desejo. Instantes depois feriu-lhes os ouvidos uma estrondosa explosão, uma bomba vinda do céu, que fez a gêmea cair desmaiada no carpete. Diego a socorreu no mesmo ímpeto, mas com toda solenidade que a ocasião pedia. Quando tocou sua pele de pétalas de rosas caídas pelo chão, quase desmaiou também.

Ela já havia se recobrado quando ele a colocou sobre a cama, e até abriu os olhos quando ele disse que ia chamar alguém. Novamente os olhares se prenderam, e ele perguntou se ela estava bem. Aquela era voz mais doce que ela já ouvira e ouviria em sua vida. Clarissa apenas levou o indicador suavemente até os lábios dele, pedindo que não dissesse mais nada, e o beijou.

III - Amor

Clarissa sabia que a irmã estava apaixonada pelo filho da governanta, pois lera clandestinamente em seu diário, coisa que fazia sempre quando estava deprimida. E ligou imediatamente o nome à pessoa quando o viu no dia da chuva. Ele não era nem de longe parecido com todos os outros garotos que conhecera no mundo. Quando a pegou nos braços e a colocou na cama, aquele contato entre suas peles, aquele aconchego.. ah! Clarissa o amou acima de qualquer coisa, acima de qualquer valor moral. Quando o beijou, quando deslizou os dedos entre seus cabelos, quando sentiu a lisura gélida de sua nuca, ela já não saberia mais como viver sem ele. Quando o beijo acabou e Diego abriu os olhos, Clarissa viu refletido neles algo que se parecia muito com o que todos chamavam de felicidade. Quis dizer alguma coisa, mas vacilou. Diego riu. Ela quase explodiu, e disse-lhe por fim três tímidas palavras: "Eu te amo".

Clarissa não dormiu pelas semanas seguintes, e evitou a presença da irmã como uma criança que quebrou o jarro evita a da mãe. Também não chorou mais nenhuma lágrima, embora ninguém tenha reparado. Sentia em si algo que desconhecia, mas gostava. Não precisava de nomenclaturas, bastava fechar os olhos e lembrar. Nas aulas de dança daquelas semanas, dançou como só os apaixonados dançam, e todos apreciaram muito, embora ela ainda não gostasse de dançar.

Diego continuou a freqüentar a mansão todo dia após a escola. Ninguém estranhava seus motivos, era só um filho carente. Com a rotina, passaram a vê-lo como um ajudante de sua mãe e lhe atribuíam funções naturalmente. Passeava todo final de tarde com Sebastian pelo bairro. Todos passaram a vê-lo como mais um empregado da casa. Todos, exceto as gêmeas.

Tristessa esgueirava-se pelos esconderijos escuros e pontos cegos da casa para contemplá-lo o máximo de tempo possível sem ser notada. Clarissa ousava se arriscar à luz dos olhos dele, de provocar encontros pela casa, e cumprimentá-lo pelo nome. Um dia pediu na frente de todos que ele fosse a seu quarto ajudá-la a tirar uns livros da estante. A governanta achou aquilo muito estranho e foi verificar o que estava acontecendo de errado debaixo do seu nariz. A porta estava trancada, mas ela tinha a chave mestra, e os flagrou na cama, vestindo suas roupas desajeitados pelo nervosismo, a vergonha e a pressa.

A governanta, no fundo, esperava encontrar o que encontrou. Ansiava por se certificar de que o filho não era gay há muito tempo. Desde a outra vez em que o flagrou no banheiro da casa do antigo emprego, sendo abusado pelos dois filhos do patrão, nada lhe tirava aquela idéia da cabeça. Ela não ponderou que, tendo sido abusado, aquilo não implicava nada na sexualidade do filho. Na época, ela inclusive ficou do lado de Diego, pediu demissão, processou o patrão, que fez um acordo generoso com ela, e nunca mais se tocou no assunto.

Ela esperava encontrar o que encontrou, seu filho macho, mas de qualquer maneira não lhe soava bem o pensamento do filho da empregada comendo a filha do patrão. Passou um sermão nos dois, além de avisar a Diego que ficaria de castigo por muito tempo e que suas visitas à mansão estavam terminantemente proibidas.

Clarissa não sabia onde enfiar sua vergonha. Apenas fitou com olhar de clemência a severa e gorda mulher que os flagrara, implorando arduamente por sua cumplicidade. Mas a governanta avisou que jamais trairia a confiança de seus patrões, que jamais trairia seus princípios, mesmo que aquilo lhe custasse o emprego. E assim ela o fez. Contou tudo sobre o ocorrido quando apresentou seu pedido de demissão. Os pais de Clarissa acharam aquilo desnecessário, a demissão, mas a mulher estava irredutível, apoiando-se em seus princípios. Na verdade, ela queria mais do que tudo sair daquele emprego, daquela casa, do convívio com aquela família estranha. Com seu currículo e uma boa carta de recomendação, conseguiria emprego em qualquer mansão daquele bairro de mansões.

IV - Sexo

Se o que aconteceu a Clarissa tivesse acontecido a Pablo, certamente seus pais teriam provocado um terremoto em três ou quatro continentes. Talvez tivessem mandado mafiosos torturarem Diego até a morte, com a instrução explícita de castrar-lhe antes. Mas em se tratando de uma das gêmeas, a coisa era toda outra. Eles sentiram até um certo alívio pela filha demonstrar comportamentos normais de pessoas da idade dela. Quiseram ter uma conversa com ela, pra dizer aquelas coisas que pais dizem. Não sobre sexo seguro, doenças, e essas coisas educativas - pra isso pagavam colégios caros. Era pra dizer que aprovariam se ela quisesse começar a namorar, mesmo que fosse o filho da governanta. Era melhor do que passar a vida inteira como uma beata reclusa. Quiseram conversar isso tudo com ela, mas não conseguiram. Não era fácil ter uma conversa com nenhuma das gêmeas.

Mesmo com a demissão da mãe, Diego continuava proibido de ir à casa de Clarissa, assim como de encontrar-se com ela. Mas a mãe logo arrumou outro emprego e ele continuou a morar com os avós, que faziam todas as suas vontades e nunca lhe perguntavam pra onde ia.

Clarissa começou a fazer aulas de dança todos os dias em vez de semanalmente, embora ainda não gostasse de dançar. Depois das aulas, ia direto para a loja de discos raros onde trabalhava um rapaz com uma cicatriz no lado direito do rosto.

Ele se chamava Victor. Costumava ser um garoto doce, mas as pancadas da vida o deixaram um tanto quanto amargo. Sempre fora a mente mais promissora dos meios em que passou, mas ficou apenas com as promessas. Eram os mais ricos, os mais influentes, os mais dissimulados quem ficavam com as oportunidades. Cresceu vendo seus amigos que não mereciam se tornando bem sucedidos e ele ficando pra trás. Odiava isso. Só encontrou refúgio na intelectualidade ressentida. Vestia camisetas das bandas mais indies das quais você jamais vai ouvir falar e discursava sobre elas como se fossem tão conhecidas quanto os Beatles. Foi já trabalhando na loja de discos raros que conheceu Diego. Simpatizou com ele de cara. Era um garoto interessado, e que não tinha grana pra comprar nem o mais barato dos discos dali. Tornaram-se melhores amigos. Victor não apoiava o namoro às escondidas, mas emprestava pra Diego e Clarissa a chave de seu apartamento, que ficava ali pertinho, para que eles pudessem aproveitar o resto da tarde.

Victor só queria ver o garoto feliz. Faria qualquer coisa por ele.

Tristessa sempre soube que algo estava acontecendo. Sabia que a irmã lia seu diário, até mesmo por isso o escrevia. Sabia que ela e Diego estavam ficando, apesar do flagrante ter ficado restrito apenas aos envolvidos e seu progenitores. Antes da governanta se demitir, Diego e Clarissa transavam de quatro a cinco vezes por dia no quarto dela, sem que ninguém percebesse. Ninguém, exceto Tristessa, que colava o ouvido na parede - que dividia o seu quarto com o da irmã - para ouvir o garoto que ela amava gemer doces suspiros empolgados enquanto transava com outra.

Mesmo depois que pararam de transar no quarto ao lado, Tristessa sabia que a irmã e ele continuavam a se encontrar. Sabia porque os seguia. Já conhecia de cor aquele ritual. Toda vez que o casal saía da loja de discos rumo à sua alcova clandestina, Tristessa tinha ímpetos de entrar e puxar conversa com Victor. Sentia que havia algo nele que levava até Diego (e ela seguiria qualquer caminho até Diego). Mas não poderia simplesmente entrar na loja e perguntar por um disco. Não com aquele rosto, idêntico ao da irmã. Nem poderia se passar por Clarissa, pois a farsa seria logo descoberta, e o que ela diria? Maldito rosto, maldita semelhança! Desejava ser qualquer outra pessoa do mundo naqueles momentos, exceto ela mesma e a irmã. Bem, também não gostaria de ser Pablo, seu irmão bon vivant.

Pablo, aliás, nunca deu falta de Diego pra nada. Sempre havia um outro empregado pra fazer as coisas por ele. E havia tanta gente interessante que o adorava, um insosso a menos não faria a menor diferença. Ainda mais naquela época que estava saindo com uma garota pra quem só serviam presentes com a etiqueta Christian Dior.

Tristessa esperou pelo melhor momento para forjar a coincidência de ir à mesma loja de discos que a irmã ia todo dia. Era uma terça-feira. Depois de muito amargar das sombras em que se escondia o sorriso de Clarissa na companhia de Diego, ela enfim entrou na loja. Estava vazia (isso fazia parte de ser o melhor momento). Dirigiu-se diretamente a Victor e perguntou por uma edição do Viva Hate que tinha várias faixas bônus, e, nervosa, deu o nome de todas delas. Victor estranhou o fato dela ter-lhe chamado de "moço". Perguntou se estava acontecendo algo, chamando-a de Clarissa no final. Foi o gancho perfeito para Tristessa explicar que era gêmea e para na seqüência puxar assunto sobre Clarissa e Diego. Principalmente Diego.

A loja não tinha a edição do disco que Tristessa queria, mas como já era final de expediente, Victor acabou por convidá-la para ir ao seu apartamento. Queria fazer uma surpresa pro casalzinho que sempre o esperava com um farto café posto à mesa. Quando ele abriu a porta, apenas Clarissa estava na sala. O olhar que as gêmeas trocaram foi como um rasgão no universo, um buraco negro de onde era impossível escapar. Victor foi quem primeiro sentiu a magnitude do choque de forças entre as gêmeas. Duas forças de mesma intensidade, mas direções completamente antagônicas. Sentiu a linha invisível dos olhares quase lhe cortar a carne, e não havia nada que pudesse fazer. Isso durou até que Diego saiu do banheiro enrolado numa toalha nas cores da bandeira da Grã-Bretanha sem entender o silêncio que o cercava. Nesse instante, todas as linhas de olhares possíveis se dirigiram para ele, que, embaraçado, apenas olhou para baixo enquanto as gostas de água desciam-lhe pelos cabelos molhados e escorriam pela face rósea, e quase se ouviam os suspiros apaixonados na sala.

V - O Café

Victor tomou uma xícara de café e ligou a TV, já que ninguém mais se atrevia a falar, exceto o Ewan McGregor que sofria alucinações com um bebê andando pelo teto. Sentados à mesa os quatro, os olhares se escondiam, mas quando o encontro era inevitável, eles ainda cortavam. As gêmeas eram as mais hábeis nas técnicas de se anularem, mas houve um instante em que Diego foi pegar o creme de tangerina que estava perto de Tristessa e seus olhares de se cruzaram pelo mínimo instante em desconforto, e foi o suficiente para Diego entender tudo. Entender que foi Tristessa por quem ele se apaixonou primeiro, que era dela aquele jeito que nunca vira em Clarissa, aquele desconcerto extremo. Como um único gesto de uma pessoa conseguia mexer tanto com ele?

Gostava de Clarissa, mas queria conhecer o lugar incomum ao qual o simples olhar de Tristessa o arremessava. Desejou poder ter as duas.

O café acabou, o Ewan se calou, o sol se pôs, o assunto nunca houve, o que faltava era a coragem de dar o primeiro passo pra encerrar aquela reunião silenciosa. Foi Victor quem o deu. Disse que precisava se arrumar, pois ia sair com amigos, mas que os três podiam ficar o tempo que quisessem. Diego respondeu imediatamente que já estava de saída, que acompanharia a namorada até sua casa, e perguntou se Tristessa iria com eles. Ela acenou positivamente com a cabeça e o último raio de sol se apagou no horizonte.

VI – A Chuva

Pablo ouviu o barulho seco de algo caindo no corredor. Torceu para não ser o quadro que ganhara da avó no aniversário de treze anos, uma pintura que o tinha como modelo altivo e elogiado. Foi ver o que era, mas só encontrou a irmã desmaiada. Era uma quinta-feira. Clarissa deveria estar na aula de dança, pois não era de faltar, mas estava jogada no chão como um corpo sem vida. Pablo não entendeu direito o que ela fazia ali. Tentou acordá-la. Como ela não respondia, foi chamar a governanta pra cuidar da situação. Chamaram uma ambulância e enfermeiros uniformizados levaram-na para o hospital. O irmão sentiu-se heróico.

Tristessa justificou a si mesma que devia ir à loja de discos raros pedir a Victor que avisasse Diego do ocorrido. Mas de algum modo nem tanto inconsciente, ela foi exatamente no horário em que Diego costumava chegar. Encontrou-o na porta de entrada da loja e nem chegaram a entrar. Victor assistiu a tudo lá de dentro, com um olhar que poderia abrir um rasgão no universo, o mesmo olhar que aprendera com a garota que naquele exato instante executava seu estratagema lá fora, um plano que Victor sempre sentiu no ar.

Tristessa não contou a Diego exatamente o que se passara com sua irmã. Disse apenas que ela teve de ir ao hospital, por causa de um desmaio, nada demais, Clarissa era dada mesmo a desmaios desde pequena. Tristessa disse muitas coisas. Nunca em nenhum outro momento de sua vida, passada ou futura, falara tanto. Falava numa tentativa desesperada de encobrir uma ansiedade que teria facilmente o poder de transfigurá-la. Mas Diego não ouvia. Estava flutuando no calor de uma outra realidade, uma dimensão perpendicular. Estava exatamente no cruzamento. Não ouvia, mas agradava-lhe a música de Tristessa. Não havia momento em que as gêmeas eram mais diferentes uma da outra do que quando falavam, ele concluiu.

Caminharam juntos em silêncio pela longa avenida só de pedestres. Os únicos pedestres. As nuvens cobriram o sol e escureceram o dia num rompante. Os trovões já se faziam ouvir ao longe, os pardais voavam dos fios elétricos, o vento soprava os cabelos de Diego, ao que Tristessa deu um longo suspiro, perguntando a si mesma por que sempre chovia sobre ela. O homem que vendia guarda-chuvas aumentava o preço da mercadoria à medida que os pingos engrossavam. Tristessa tinha dinheiro pra comprar todos os guarda-chuvas da caixa, mas comprou apenas um, debaixo do qual se escondeu com Diego no meio da avenida deserta. As marquises das lojas observavam-nos repletas de amontoados de pessoas de açúcar. Diego e Tristessa estavam alheios a tudo. Pararam um instante. O vento soprava-lhes na face alguns pingos, os respingos do chão molhavam-lhe os converses. Olharam-se exatamente como na primeira vez, e seus olhos eram astros se sobrepondo no arranjo complexo de um eclipse múltiplo, e então beijaram-se.

Parados no meio da avenida, debaixo de chuva, cortando o vento, destoando de tudo, eram como uma escultura minimalista... não, não, uma obra de pop-art... não, melhor: um monumento urbano no qual ninguém repara. Eram duas estátuas de pedra frágil, de gesso lívido, construídas num eterno beijo contido, enquanto a fonte maior jorrava do céu a sua água.

Tristessa não foi triste enquanto durou a chuva.

Seguiram entre poças d'água e enxurradas, abrigados pelo tecido negro e impermeável sobre suas cabeças. Diego dizia-lhe ao ouvido coisas bonitas. Disse que ia resolver sua situação com Clarissa, ia terminar tudo, pra ficar com ela, Tristessa. Disse que se apaixonara por ela desde o primeiro olhar. Disse o mundo inteiro em palavras tímidas e aquecidas por um fervor ingênuo. Deu a ela uma empolgação que não conhecia.

Mas as nuvens secaram, a chuva passou, e os raios de sol voltaram a cortar a atmosfera úmida, devolvendo-lhe a claridade do dia. O telefone celular tocou. Tristessa atendeu desajeitada, ao mesmo tempo que fechava o guarda-chuva. Morreu um pouco, desligou o telefone e comunicou a Diego que a namorada dele estava em coma. Grávida.

 

(a ser continuado...)