Home

Catálago de Desabafos, Poemas, Desejos...

Algumas Idéias Compiladas

Contos

Romances

Boy In Bowl

Antártida

Links

Sobre Mim

Yellow Ville

Júlio B.
 

I. A Terra Em Que O Amanhecer É Proibido

Com a cabeça sempre abaixada, como se estivesse com vergonha do mundo, havia um belo vulto. Nenhum raio de luz vindo do nascer do sol penetrava em Yellow Ville. Os passos eram caóticos e em direção ao ímpeto, mas nunca com o rosto exposto. Era um lugar amarelado, no entanto, tudo levava a crer que talvez fosse belo. O vulto. Muito belo.
O calçamento era antigo. Paralelepípedos amarelos. As calçadas eram largas, como se houvesse ali mais pedestres que veículos automotores. As árvores teciam o teto natural das ruas, dando a elas o aspecto úmido e sombrio de um bosque iluminado artificialmente.
Minha vista de Yellow Ville se dava através de uma janela de ônibus. O vidro entre mim e o mistério dessa terra estava gelado, embaçava de vez em quando, o que me obrigava a esfregá-lo até voltar a ver através dele. Pensei ter ouvido alguém anunciar nossa chegada. Ou foram apenas os ruídos dos estômagos famintos dessa terra?
Pelo menos no anúncio, não havia fome ali. Mas fome há em todo lugar do mundo. E não seria diferente em Yellow Ville e suas propagandas amarelas.
Quis amanhecer. Quis o amanhecer. Quis tocar aquela visão deliciosa que meus olhos sedentos podiam ver. Mas, naquela terra, isso era proibido. Eu poderia saborear a escuridão, se eu quisesse. Com algum esforço, o entardecer. Num lance de sorte, quem sabe, até conseguiria ter em meus braços a luz do meio-dia. Mas nunca o amanhecer.
Deitado naquela poltrona com o tão característico cheiro de ônibus, contemplando o que nunca estaria ao meu alcance, desejei em silêncio. Na vitrola imaginária que levo em minha cabeça, tocou Bob Dylan. O resto do processamento do meu cérebro era preenchido com desejos e fantasias a cerca daquela limitada visão.
A noite consumia os horizontes. Nuvens carregadas ocultavam, imponentes, o céu acima estrelado. Talvez houvesse orvalho, mas não dava pra ter certeza. Se haveria chuva ou tempestade dali a pouco, também não dava pra dizer. As nuvens eram daquele tipo que só existem para limitar a visão dos espectadores terrestres.
Ainda de cabeça baixa, a visão foi se desfazendo, se afastando. Meus olhos entraram em desespero. Estavam cada vez mais sós naquela terra de regras que os limitava. E mesmo que não fosse uma regra explícita, nenhum habitante dali permitiria que a luz do amanhecer fosse contemplada.
Quisera eu realmente ter ido embora de Yellow Ville quando aquele ônibus ligou o motor e se dirigiu para seu destino. Quisera eu não estar preso nessa terra amarela independentemente de para onde eu venha a fugir. A fuga remedia, não cura. Tal proibição me mata dolorosamente devagar.

II. A Prisão

Bem vindo à terra onde as pessoas são pelo menos reais. Aqui, o amanhecer é proibido, mas é real. Sonhar é uma atividade cerebral durante o sono. Enquanto acordado, tais pensamentos e desejos são denominados fantasia.
Aqui, algumas pessoas são felizes. Mas só as amarelas. As outras, bem, quem se importa com as outras? Aqui, as pessoas devem ser amarelas. É a lei, não a oficial - porque cor não se escolhe -, mas a implícita. Por quê? Ora! Porque é assim que as coisas são! Era assim com os pais dessas pessoas, com os seus avós e bisavós. Essa é a maneira certa. É assim que seus filhos são educados. A cartilha amarela das escolas ensina isso, mesmo que de forma subliminar. Se você não é amarelo, é você quem está errado. E, a propósito, eu não sou.
Conheço não-amarelos que já tentaram se pintar de amarelo, mas não deu muito certo. Muitos compram roupas amarelas, tomam remédios amareladores, procuram especialistas, cirurgiões dermatológicos, curandeiros, orientadores espirituais ou muambeiros. Existe até terapia de grupo para não-amarelos. Mas nada é realmente eficaz.
Mas, pra ser sincero, eu nunca quis ser amarelo. Não é demagogia. Se não feliz, pelo menos eu mesmo. Aqui nessa terra, eu prefiro ser honesto comigo, indo pelos meus próprios caminhos e enfrentando todos os riscos de não obedecer aos amarelos.
Os amarelos são chatos. Os amarelos sequer ouvem Yellow Submarine. Amarelos não gostam de música viajantes. Os amarelos são previsíveis e rotineiros. São comodistas e preferem a ordem à diversidade. Os amarelos estão sempre certos. Talvez porque sejam eles que criam as regras (para eles mesmos). Estão sempre com a razão. Os amarelos são aqueles a quem se destinam os raios do sol. Pelo menos, na cabeça deles é assim que funciona.
Os amarelos podem amar. Os não-amarelos têm de se conformar.
Dói tanto ser proibido o tempo todo. Mas para quem eu poderia tentar recorrer? Eu não nasci como a maioria. Esse foi o meu pecado. Eles precisam das regras para manter sua ordem. Eu até entendo. Se eu vou ser infeliz por toda minha vida por causa disso, eles não ligam. Eu sou apenas uma exceção.
É aqui que eu estou preso. Não haveria como escapar, pois, de lugar para lugar, mudam as paisagens, mas não as mentalidades amarelas. Tenho andando e andado e ainda são proibidos os raios de sol do amanhecer. Aonde quer que eu vá, estou em Yellow Ville. É aqui que meus desejos morrem em silêncio.

III. Os Raios do Sol

Os raios de sol não são necessariamente amarelos. Pela manhã, são avermelhados. E como o vermelho me excita!
Eu poderia ser feliz iluminado por um rubro raio de sol. Mas há dois pontos que gostaria de explicar para que entendas, leitor, minha prisão em Yellow Ville.
Ponto um: os raios de sol avermelhados só existem ao amanhecer. E, ao amanhecer, os raios de sol aqui são proibidos. E mesmo que eu vencesse a proibição, ainda há o ponto dois.
Ponto dois: os raios de sol avermelhados do amanhecer gradualmente se tornam amarelos no decorrer do dia. E os amarelos não me excitam. Os amarelos representam a tristeza existente no meu mundo.

IV. Em Cada Raio de Sol

Cada raio de luz trás em si uma soma ponderada
De tristeza e alegria,
De matéria e energia,
De beleza e nostalgia.
Quisera meu coração não ter sido sempre noite.
Ainda espero a luz do dia.


V. Yellow Foot

Em Yellow Ville, belas crianças em roupas velhas reviram os lixos em noites frias procurando latinhas e restos de comida, calçando suas sandálias amarelas.

 
 

Site Meter ® JulioB612
juliob612@gmail.com
Obrigado!